Eu olhava pros bobos da TV e me ria sozinha. Gargalhava da empregada, quando deslizava sonhadora pelo corredor, cantando bobeiras de amor e de paixão. O amor sempre fora bem vindo, mas nunca parecia ficar por muito tempo. Paixões, casos, beijos, abraços e os passos que sempre me levavam embora. Eu não quis que acontecesse. Aquele frio na barriga, aquela sensação de vazio, aquela dor que a falta fazia, e faz. E me recriminava na frente do espelho.
"Tu! Que juraste nunca entregar seu coração. Que prometeu ser dona do próprio nariz! E agora, mulher?! Que tu vais fazer com tua vida? Agora não é mais dona de si, se vendeu por pouco. Por um abraço numa noite fria, deu teu corpo e alma. Tu! Que se jurou tão independente, tão confiante da tua vontade própria. E agora, mulher? E agora?!"
Mas nem meu próprio reflexo consegue mostrar a vergonha que tenho por me sentir tão vulnerável, tão fraca. Não pertenço a mim mesma, mas a você. Aos teus braços que não querem me abraçar, a tua boca que não me beija, aos teus passos, que não te trazem pra mim.
Sinto inveja, sim. Sinto do segurar das mãos até as juras de amor segredadas debaixo de uma noite cheia de estrelas. Sinto inveja de quem pode te segurar. Sinto inveja de quem te tem enrolado nos dedos, como eu quero ter.
Interprete isso tudo como quiser.
Como uma reclamação de alguém que cansou de sofrer.
Como um término, um ponto final, uma forma de me desprender de você.
Ou até como uma forma de extravazar esses sentimentos confusos e malditos que você me causa.
Mas como seu ego consegue ser maior que você, interprete como uma carta pra você. Um jeito de finalmente soltar; estou apaixonada! É em você que penso a noite antes de dormir, na fila do banco, na rua, nas praças. Que faz me passar papel de boba quando passa. E me tortura a alma sem escrúpulos.
Eu te amo. Imbecil.
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